Época
15/03/2008
Aécio Neves
"Ninguém quer mais conflito entre PSDB e PT"
De olho no Planalto, o governador de Minas Gerais - com muita conversa e alguma conspiração - está tentando construir uma ponte entre os dois partidos
ORÁCULO
Ainda faltam mais de dois anos para as eleições presidenciais de 2010, mas a agenda do governador de Minas Gerais, o tucano Aécio Neves, é o que existe de mais parecido com a plataforma de um candidato ao Palácio do Planalto. Na quarta-feira passada, ele tomou café com o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, do PT, esteve numa solenidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e jantou com o ex-presidente José Sarney, do PMDB. Na quinta-feira, almoçou com o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto, líder do DEM, participou de um encontro com artistas de favelas de Belo Horizonte e falou com o prefeito da capital, o petista Fernando Pimentel.
Nos últimos dez dias, Aécio recebeu o deputado Ciro Gomes, pré-candidato do PSB à Presidência; o presidente do PMDB, Michel Temer; o deputado Aldo Rebelo, do PCdoB; o deputado Fernando Gabeira, candidato do PV à Prefeitura do Rio de Janeiro; e os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e da Justiça, Tarso Genro. “Não estou organizando nada, são as pessoas que estão vindo a Belo Horizonte para conversar”, diz Aécio, para não ser acusado de conspiração – variante da política freqüentemente associada aos mineiros.
Faltando tanto tempo para 2010, Aécio pode estar mesmo só conversando com amigos. Mas isso não é pouco. Para ser candidato ao Palácio do Planalto pelo PSDB, ele precisaria tirar do caminho o governador de São Paulo, José Serra. Serra tem mais influência no partido, é lembrado como um bom ex-ministro da Saúde, tem base eleitoral no maior Estado do país e lidera com folga todas as pesquisas de intenção de voto para a sucessão de Lula.
Só com muita conversa – e alguma conspiração – Aécio poderá superar Serra. E ele parece disposto a isso. Eis, de acordo com seus interlocutores, o principal argumento de Aécio: para vencer as eleições, não basta liderar as pesquisas, é preciso atrair pelo menos parte das forças políticas que hoje apóiam o presidente Lula. “O Serra vai chegar a 2010 à frente nas pesquisas, mas o Aécio está mais adiantado na costura política”, diz um tucano ligado a Serra.
Aécio está prestes a dar uma demonstração prática de sua habilidade como articulador: uma aliança entre o PSDB de Minas e o PT na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte. O candidato deverá ser o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Márcio Lacerda, do PSB, ex-secretário-executivo de Ciro Gomes no Ministério da Integração Regional. Na conversa com Patrus Ananias em Brasília, Aécio acredita ter removido a resistência a um acordo que ele acredita ser um “caminho novo” para o país. Enquanto Aécio celebra uma aliança quase inimaginável com o PT, Serra tentou, mas não conseguiu, impor o apoio do PSDB paulista à reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM). Terá de conviver com a candidatura do ex-governador tucano Geraldo Alckmin, seu rival no partido.
O sobe-e-desce de políticos na direção do Palácio das Mangabeiras – a modernista residência oficial do governo de Minas – tem um sabor nostálgico para Aécio. Lembra a romaria que precedeu o lançamento da candidatura presidencial de seu avô materno, Tancredo Neves, em 1984. Tancredo é o modelo de político perseguido por Aécio. Há 24 anos, usando o mesmo método de receber políticos na confortável sala de estar das Mangabeiras, Tancredo costurou uma aliança que ia do Partido Comunista a dissidentes da Arena para se eleger presidente pelo PMDB no colégio eleitoral. Aécio, que completou 48 anos na semana passada, era um estudante de 22 quando o avô o escolheu para ser seu secretário particular e testemunha de boa parte daquela articulação política. “Aécio aprendeu a fazer política na escola da habilidade e da cautela, as marcas de Tancredo”, diz o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB), amigo ao mesmo tempo de Aécio e de Serra.
Aécio é cauteloso. Há pelo menos dois anos vem sendo convidado a entrar no PMDB, com a promessa de ser indicado candidato ao Planalto. Aécio não fechou a porta, mas é improvável que aceite esse atalho. Deseja ter o PMDB como aliado, mas não quer se transformar em refém de suas disputas internas. Ele prefere esperar, mas gosta de esperar conversando. Abaixo, trechos da conversa com ÉPOCA.
ÉPOCA – Por que tantos políticos de partidos diferentes e até adversários têm ido a Minas falar com o senhor?
Aécio Neves – Há uma fadiga do nosso lado e também entre os aliados do governo Lula em relação a esse radicalismo na política brasileira. É uma radicalização artificial, porque não se dá em torno de programas. É só a disputa pelo poder.
ÉPOCA – É possível evitar o radicalismo entre PSDB e PT?
Aécio – Em 1993, estivemos muito próximos. Havia uma articulação que envolvia o Tasso Jereissati (na época governador do Ceará) e o Lula, que caminhava para uma dobradinha. Mas em 1994, com o Plano Real, veio a candidatura do (ex-presidente) Fernando Henrique. Depois disso, caímos na lógica da disputa, marcada pela tensão entre PT e PSDB que existe na política de São Paulo. Ninguém quer mais esse confronto.
ÉPOCA – Isso se resolve conversando?
Aécio – As conversas ajudam a superar resistências. Será que não é possível, a partir de um projeto, nós nos aproximarmos? Isso começa por gestos, como o que estamos fazendo em Belo Horizonte. Aqui estamos construindo uma aliança para dar continuidade à parceria entre governo do PSDB e Prefeitura do PT.
ÉPOCA – Pode-se apostar que a aliança PSDB–PT começa em Belo Horizonte?
Aécio – As conversas estão caminhando muito bem no sentido de termos um candidato comum, do PSB, à Prefeitura. Temos tratado com o prefeito Fernando Pimentel e tive excelentes conversas com o ministro Patrus Ananias (ex-prefeito de Belo Horizonte) e com o ministro Hélio Costa (Comunicações), porque é importante trazer também o PMDB. Acredito que o PT não vai se colocar contra a continuidade de uma parceria entre Estado e Prefeitura aprovada por 86% da população. Já imaginou o palanque desse candidato? O Lula, eu, o Ciro Gomes, o Patrus, o Sérgio Cabral...
ÉPOCA – E o José Serra?
Aécio – Ele vai estar bastante ocupado em São Paulo, com um candidato do PSDB e outro do DEM, mas será muito bem-vindo a Minas, como sempre.
ÉPOCA – A aliança mineira tem futuro nacionalmente?
Aécio – Ela mostra que está surgindo um caminho novo. Por isso eu disse que, se vier a ser candidato à Presidência, não será como um anti-Lula, mas como um pós-Lula. Digo sempre que não podemos demonizar esse governo, apesar das falhas na gestão e da ação de alguns aloprados que ainda estão por aí.
ÉPOCA – Os dois partidos estão tão próximos assim?
Aécio – Entre PSDB e PT não existe mais um grande contencioso ideológico. A guinada econômica do PT nos aproxima. Eles mantiveram corretamente o rumo em que havíamos colocado o país. Por que não voltar então a 1993? Por que repetir a lógica de 1994 e das três eleições seguintes?
ÉPOCA – Mas no PSDB é forte a idéia de enfrentar o PT, inclusive por parte do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Aécio – Dentro do PSDB, há espaço para esse novo caminho, como há no PT, no PDT, no PSB. Podemos ter um projeto de país, aliás, devemos.
ÉPOCA – O senhor é candidato à Presidência?
Aécio – É uma possibilidade, mas ninguém pode ser candidato de si mesmo. Não estou conversando sobre candidaturas nem sobre uma chapa para 2010, mas sobre a necessidade de criar melhores condições para quem ganhar. Isso vale para mim, para o Serra, para quem for o candidato.
sábado, 15 de março de 2008
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